
Seu jeito gata (Contos de Baguaçu)
Essa cidade misteriosa situada na linha noroeste de São Paulo tem segredos ocultos em suas histórias que estão além da nossa crença e depois de escutá-las, precisamos ficar um bom tempo meditando e degustando seu conteúdo para compreendê-las.
A cidade parece se esconder no mapa sendo apenas encontrada pela estrada, desta maneira escolhe a dedo os viajantes que possuem o dom de encontrá-la, um ponto além da imaginação e uma vez escolhido você terá um passaporte imaginário para retornar e àqueles não escolhidos a entrada jamais será aberta.
Eternamente sentado à beira da entrada da cidade encontramos um velho contador de histórias, às quais afirma serem verídicas, pois foram presenciadas pessoalmente por ele, só não sabe afirmar a data do acontecido e nem sua própria idade. Ele parece ser os olhos daquela cidade forasteira.
O sol exageradamente quente emitia vapores do asfalto ao ar facilmente visto a olho nu, esse calor angustiante tornava aquela viagem insuportável e nesse momento de desespero avistei finalmente um local para descanso. Baguaçu! Há muito tempo eu não voltava àquela cidade estranha.
Logo na entrada da cidade avistei o velho contador de histórias sentado sob a sombra de uma grande árvore. Estacionei o carro, peguei dois copos de água fresca e sentei ao seu lado, onde começamos a conversar sobre a cidade.
Ele pouco falava. Suas palavras pareciam não fazer parte do presente e surgiam com dificuldade atravessando uma linha invisível do tempo, na qual se tornava um mediador entre o passado e o presente, por isso sua idade não revelada talvez seja a mesma idade da própria cidade, tudo que acontecera ali estava perfeitamente gravado e arquivado em sua memória.
Ofereci o copo de água fresca a ele e falei:
- Que sombra deliciosa!
Ele fez um momento de silêncio e falou:
- Tudo na vida tem uma história para ser contada e esta árvore também tem a dela, seu desfecho é inusitado. Preste atenção!
- Tantos anos passados, nem sei dizer quantos, por isso peço licença e permissão ao tempo para voltar atrás. Ainda me lembro claramente daquela noite de verão. Era quase outono, pois muitas flores já se despediam levando sua beleza embora para retornar apenas na próxima primavera.
O homem ficou pensante durante alguns minutos antes de continuar a contar o acontecido, depois continuou:
- Ela apareceu como uma intrusa naquela festa de verão. Caminhando leve como uma gata ela fazia seu vestido rodado voar e cativar o meu olhar transformando aquele encontro casual num jogo de posições em que ela é a gata e eu uma presa camuflada a espiá-la.
Seu jeito cauteloso e centrado de contar a história parecia me fazer enxergar tudo que o velho contava. Tudo naquele lugar parecia estar fazendo parte daquela história acontecida há tantos anos atrás e me levando junto àquele passado desconhecido. Ele continuou a contar:
- Todos pararam de dançar para vê-la entrar no salão dançando e transformando aquele momento num sonho, seu jeito de gata a mantinha distante dos olhares críticos, mantendo-a focada apenas em seu girar planado e leve.
- Meu silêncio se tornou observador para ver o amor dançando e me levando com ela em sua interposição de poder feminino.
- Essa situação momentânea do meu encontro com ela gerado por uma intervenção do amor me deixou cego, guiado apenas pelos seus passos, nos quais eu via apenas o amor girando com seus olhos cor de mel lançando seu veneno em mim, um tipo especial de veneno que me deixou sem reação, dominado e envolvido apenas pela emoção.
- A gata percebeu que eu a espiava e numa ação cautelosa ela se aproximou de mim brincando, encostando e me alisando com seus olhos venenosos focados em mim. Fiquei com os olhos amedrontados observando ela chegar cheia de intenções, me abordando manhosa, dengosa, gostosa e ansiosa por carinho.
- Aquele momento me arrepiou e ela percebeu minha ação insegura tentando recuar, então a gata poderosa e linda fincou suas unhas em minha pele doendo no coração.
De repente o velho deixou uma interrogação no ar, como se estivesse questionando a si mesmo: Como aquela gata poderia estar me vendo, se eu era o tempo e como o tempo eu era invisível, apenas sensível?
Aproveitei a pausa e também questionei: Como era essa gata faceira?
- Lembro-me perfeitamente daquele cabelo longo enfeitado com flores e agora sei perfeitamente como ela me via, pois ela era a paixão e tudo que estava acontecendo fazia parte de um momento, que é uma lente instantânea na qual o tempo fica totalmente visível, colocado desta forma perdi a minha invisibilidade.
Ela aproveitou-se do momento em que todos estavam de coração aberto e invadiu. Muitos dos que estavam presentes naquela festa morreram de paixão, outros ficaram loucos e eu permaneci no mesmo lugar em que ela me deixou.
- Tudo isso faz parte da história dessa árvore?
- Sim!
- Todas as pessoas saiam daquela festa com uma feição de extrema paixão. Do lado de fora a madrugada se enfeitava numa neblina densa, na qual a vegetação se confundia entre romântica e assustadora, talvez a paixão também seja assim.
Ela foi a última a sair. Segurei a sua mão e perguntei:
- Posso levá-la comigo?
- Isso é impossível. Você não tem coração.
- Deixei o tempo passar um pouquinho e ela caminhando leve como uma gata foi penetrando na neblina sem olhar para traz, desapareceu bem neste lugar, porém antes de desaparecer deixou cair uma flor que estava enfeitando o seu cabelo. A flor deu origem a um pequeno broto ao qual dediquei meu amor e aqui encontro o seu carinho e a sua beleza, provando que a gata da paixão estava totalmente enganada, pois até o tempo tem coração e é nele que pulsa a saudade.
- Ela me acolhe em seu colo oferecendo sua sombra, quando quer me tocar lança suas folhas, por isso permaneço sentado ao lado dela, dando tempo para ela se enfeitar linda na primavera, porém os momentos que eu mais gosto são as madrugadas, nas quais nós ficamos sozinhos, nelas eu faço o tempo passar lentamente dedicando todo meu tempo a ela.
- Antes de você ir embora, repare como essa árvore tem o formato do rosto de uma gata.
Levantei para ir embora e realmente vi que aquela árvore parecia ser uma gata sentada e quanto mais eu caminhava e a distância aumentava, via plenamente que ele estava sentado ao lado de uma gata.
Entrei no carro, sai da cidade e continuei minha viagem.
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